Do céu à terra: a cenografia do casamento de Juliette e Kaique no Instituto Ricardo Brennand

O Instituto Ricardo Brennand, em Recife, foi o cenário escolhido por Juliette e Kaique para celebrar seu casamento. Conhecido pela arquitetura inspirada nos castelos medievais e por seu acervo de arte, o espaço também faz parte da história pessoal da noiva. Antes de realizar ali o próprio casamento, Juliette trabalhou como maquiadora de outras noivas que passaram pelo Instituto.

O projeto começou a ganhar forma após o contato da Dreams, por meio da assessora Jamine Tinoco, e a aprovação do projeto de decoração e direção criativa de Harley Vix, o casal convidou a equipe para uma imersão na Paraíba. Conduzida pelo produtor cultural Thiago Buriti, a experiência incluiu visitas a ateliês de artistas locais, entre eles o da artista e pesquisadora Marlene Almeida, que apresentou seus estudos sobre pigmentos naturais e uma das tonalidades da terra de Campina Grande. A pesquisa cromática também explorou os verdes da Serra da Mantiqueira, região de origem do noivo, conectando diferentes paisagens brasileiras à paleta e à narrativa visual do casamento.

A partir dessa pesquisa e das histórias do casal, o projeto estabeleceu conexões entre arte, natureza e território, respeitando a arquitetura do Instituto e valorizando a origem dos materiais utilizados.

Desde as primeiras conversas, Juliette e Kaique também expressaram o desejo de que os materiais pudessem, sempre que possível, retornar às suas cadeias produtivas ou encontrar novos destinos após a celebração. Essa intenção acompanhou as escolhas do projeto, do algodão às peças de barro e às instalações têxteis.

A cerimônia: um céu de algodão sobre a terra

Na Capela de Nossa Senhora das Graças, dentro do Instituto Ricardo Brennand, o projeto ganhou sua expressão mais delicada.

A proposta para a cerimônia foi construída a partir da imagem de um céu que encontrava a terra. Em vez de criar grandes estruturas que interferissem na arquitetura da capela, a cenografia explorou o algodão branco em composições baixas, próximas ao chão, formando volumes que remetiam às nuvens.

A escolha preservou a leitura da capela e manteve o olhar direcionado à arquitetura, ao altar e à própria cerimônia.

O algodão não foi tratado como uma alternativa às flores, mas como um elemento botânico com identidade própria. Antes de se transformar no capulho que conhecemos, o algodoeiro também floresce. Sua textura, seu volume e sua presença natural foram explorados como parte da linguagem floral do projeto.

A predominância do branco criou uma atmosfera diferente daquela que seria apresentada nos outros momentos do casamento. Na cerimônia, a cenografia era leve e contida, com o algodão desenhando uma paisagem próxima ao chão, sem competir com o espaço.

Essa imagem de nuvens de algodão deu início ao percurso visual que seria desenvolvido ao longo da celebração.

O buquê da noiva: uma composição floral escultural

O bouquet de Juliette apresentou uma composição botânica escultural e assimétrica, com flores brancas de aparência semelhante a orquídeas e amaranto pendente (Amaranthus). Criado por Harley Vix, o arranjo explorou diferentes texturas, espaços negativos e um caimento vertical, fugindo do formato tradicional dos bouquets de noiva.

O visual contou com styling assinado por Fabiana Leite, beleza de Krisna e vestido criado pelo estilista Carlos Bacchi. Em tom marfim, a peça apresentou uma silhueta arquitetônica, com corset estruturado, decote tomara que caia e saia volumosa. O contraste entre a estrutura do vestido e o movimento orgânico das flores criou uma composição contemporânea, em sintonia com a linguagem botânica da cerimônia.

O encontro entre a cenografia e a arquitetura do Instituto

O local reúne diferentes ambientes, obras e elementos arquitetônicos que já possuem forte presença visual. Por isso, a proposta não buscou transformar completamente os espaços, mas estabelecer um diálogo com o que já existia.

Na capela, isso significou preservar sua arquitetura e trabalhar com uma composição predominantemente branca.

No jantar, a escultura de Davi se tornou o centro da experiência.

Já na festa, os ambientes internos receberam instalações de maior escala, explorando o terracota, a iluminação, os tecidos e as referências ao trabalho artesanal.

Essa mudança de linguagem entre os momentos não representava projetos separados. Cada composição fazia parte de uma narrativa que começava na leveza do algodão branco e avançava para a presença da terra, das pedras e das fibras.

O jantar ao redor de Davi

Desde o início, Juliette e Kaique desejavam que o jantar fosse mais do que o momento de servir os convidados. A intenção era criar uma experiência que envolvesse gastronomia, música e imagens.

Ao estudar os espaços do Instituto, a área ao redor da escultura de Davi tornou-se o ponto de partida para a concepção do jantar.

Mesas comunitárias foram distribuídas ao redor da obra, criando uma configuração que valorizava a convivência entre os convidados e a relação com a arquitetura.

A decoração reuniu velas em cilindros de vidro, pedras e vasos de barro produzidos artesanalmente por profissionais de Tracunhaém, em Pernambuco, município reconhecido por sua tradição ceramista.

A presença desses materiais trouxe uma leitura mais natural à composição. A luz das velas acompanhava as mesas, enquanto os tons da madeira, do barro e das peças escolhidas dialogavam com os tijolos e as esculturas do Instituto.

A proposta também considerou o que não deveria ser acrescentado. Em um espaço com tanta informação artística e arquitetônica, permitir que a escultura de Davi e o castelo permanecessem em evidência foi uma decisão importante da direção criativa.

Três atos para uma experiência gastronômica

O jantar à francesa foi desenvolvido em três atos, conectando os pratos do chef Onildo Rocha, a apresentação musical de Agnes Nunes e as projeções mapeadas na arquitetura do castelo.

Cada ato tinha uma identidade visual e musical própria, acompanhando a chegada dos pratos e criando diferentes atmosferas ao longo da experiência.

O terracota ganha ainda mais presença na festa

O terracota já fazia parte da identidade visual do casamento. Presente nas tonalidades da arquitetura do castelo e nas projeções do jantar, a cor estabelecia uma conexão natural com o barro, a terra e os materiais escolhidos para o projeto.

Na festa, essa presença foi ampliada. O terracota passou a conduzir o mobiliário, as superfícies e as grandes instalações cenográficas, criando uma atmosfera mais intensa e envolvente.

A paleta explorou diferentes tonalidades terrosas, em diálogo com o algodão naturalmente colorido, as fibras, as peças artesanais e as referências às paisagens brasileiras.

A iluminação quente valorizou essas escolhas, revelando texturas, volumes e profundidades e mantendo uma atmosfera intimista nos ambientes.

A sala de doces e o algodão naturalmente colorido da Paraíba

Na sala de doces, o algodão voltou a aparecer, agora em uma expressão completamente diferente daquela apresentada na cerimônia.

O algodão naturalmente colorido, coletado na Paraíba em parceria com a Associação Rede Borborema de Agroecologia, foi utilizado na criação de grandes instalações suspensas.

Os volumes percorriam a parte superior do ambiente, formando estruturas que pareciam flutuar sobre as mesas.

Abaixo delas, bases cenográficas em diferentes alturas receberam os doces de Lana Bandeira e o bolo assinado por Cake Hannouche, acompanhados por peças de barro, suportes de formas escultóricas e velas protegidas por cilindros de vidro.

A composição explorou o contraste entre a leveza visual do algodão e a presença das paredes de tijolos, das esculturas e das obras do Instituto.

As peças utilizadas para apresentar os doces também faziam parte da linguagem do projeto. Suas formas e tonalidades foram escolhidas para dialogar com o terracota, criando continuidade entre a cenografia e os detalhes da mesa.

O algodão, que na cerimônia havia sido utilizado para representar nuvens brancas próximas ao chão, agora ganhava altura, densidade e uma coloração naturalmente terrosa.

A festa como uma paisagem em movimento

No salão principal, a cenografia reuniu mobiliário desenvolvido especialmente para o evento, iluminação, instalações suspensas e superfícies de projeção. O projeto foi assinado pelo cenógrafo e decorador Harley Vix, em parceria com Eider Santos, responsável pela produção e execução cenográfica.

Os lounges receberam sofás e poltronas em tonalidades terrosas, criando espaços de convivência integrados à proposta visual da festa.

Grandes tecidos translúcidos, suspensos verticalmente, passaram a compor a arquitetura temporária do ambiente, criando divisões leves e funcionando como superfícies para projeções. As imagens se misturavam à iluminação, ao mobiliário e aos elementos arquitetônicos, tornando-se parte da própria cenografia.

O algodão também ganhou uma instalação suspensa sobre o bar, estabelecendo uma conexão visual com a sala de doces e ampliando sua presença na festa.

O Lajedo de Pai Mateus como referência visual

Entre as paisagens que inspiraram a cenografia estava o Lajedo de Pai Mateus, na Paraíba, onde o casal celebrou o casamento civil.

Conhecido por suas formações rochosas, o lugar foi uma das referências para a construção da atmosfera visual da festa.

Essas formas apareceram reinterpretadas nas luminárias escultóricas e nas projeções aplicadas aos tecidos suspensos.

A intenção não era reproduzir literalmente a paisagem, mas trazer suas características para o projeto por meio de volumes, texturas, luz e imagem.

Assim, essa referência foi incorporada ao ambiente de maneira contemporânea, em diálogo com o acervo artístico do Instituto.

O palco: uma instalação inspirada nos teares

O palco semicircular recebeu uma das maiores intervenções cenográficas da festa.

Uma instalação suspensa de fios e franjas em diferentes tonalidades terrosas foi organizada em camadas concêntricas, formando grandes volumes sobre a área de apresentação.

A referência ao tear e ao trabalho manual orientou a composição.

Os fios foram utilizados em diferentes comprimentos, criando uma estrutura com profundidade e movimento visual. A disposição das camadas produzia uma sequência de curvas que acompanhava o formato do palco.

A iluminação teve um papel fundamental na leitura da instalação. Ao atravessar os fios, revelava as diferenças de altura, as texturas e as tonalidades, modificando a percepção da estrutura ao longo da festa.

O resultado aproximava o trabalho artesanal de uma intervenção cenográfica de grande escala.

A origem dos materiais e o que acontece depois da festa

Um dos desejos mais presentes nas conversas com Juliette e Kaique era pensar também no destino dos materiais utilizados na decoração.

Essa intenção não ficou restrita à escolha estética. Ela participou do desenvolvimento do projeto e da relação com os fornecedores e artesãos envolvidos.

O algodão coletado em parceria com a Associação Rede Borborema de Agroecologia da Paraíba seguirá para a cadeia produtiva, onde poderá ser transformado em fios e tecidos.

Os vasos de barro produzidos em Tracunhaém retornarão aos artesãos para serem comercializados novamente.

Já os fios e as franjas utilizados na instalação do palco serão destinados a artesãs, que poderão aproveitá-los em novos trabalhos.

Cada um desses materiais teve uma função durante a celebração, mas seu percurso não precisa terminar com a desmontagem.

Essa escolha também evidencia a participação de diferentes profissionais e saberes na construção do projeto. Do cultivo do algodão ao trabalho com o barro e às técnicas têxteis, a cenografia reuniu matérias-primas e processos que fazem parte da produção artesanal brasileira.

Uma celebração construída a partir de histórias

O casamento de Juliette e Kaique reuniu diferentes referências pessoais em um mesmo projeto.

A relação de Juliette com o Instituto Ricardo Brennand, as referências do casal, a Serra da Mantiqueira, o Lajedo de Pai Mateus, o artesanato de Tracunhaém e a arte presente no próprio espaço participaram da construção da narrativa.

Na cerimônia, o algodão branco criou a imagem de um céu próximo à terra.

No jantar, a arquitetura do castelo recebeu uma experiência em três atos, na qual gastronomia, música e projeção se encontravam. Os tons terrosos já faziam parte dessa atmosfera, presentes tanto nos materiais quanto nas imagens.

Na festa, essa linguagem ganhou ainda mais força. O algodão naturalmente colorido, as peças de barro, os tecidos, as pedras e os fios assumiram novas formas e escalas.

O projeto de decoração e direção criativa de Harley Vix procurou conectar essas referências sem perder a identidade de cada momento.

Do céu à terra, uma cenografia em que a história do casal encontrou a arte, a matéria-prima e o trabalho de muitas mãos. E em que parte desses materiais continuará seu caminho mesmo depois da celebração.

Ficha técnica

Projeto de Decoração e Direção Criativa: @harleyvix_
Produção e Execução Cenográfica: @eidersantos
Assessoria: @dreamsbylead
Vestido da noiva: @carlosbacchi
Beleza: @krisna
Stylist: @fabianaleite
Local: Instituto Ricardo Brennand, Recife | @irbeventos
Algodão: Associação Rede Borborema de Agroecologia | @redeborborema
Gastronomia: @onildorocha
Doces: @lanabandeira
Bolo: @cakehannouche
Mesa posta: @kemimos
Iluminação: @onelightpe
VJ: @rlimoni e @p4nick.vj
Projeção: @Impprojecoes
Estrutura: @manosomeiluminacao
Fotografia: @gabrieldinizfotografo e @rodolfosantosfotografo

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